sexta-feira, 17 de maio de 2013

Déjà vu



Em Recife, consciência crítica tem época. De abril a julho, entre jacarés nas avenidas e desabamentos nos morros, dos moradores de Boa Viagem que se divertem em seus esquis nas ruas alagadas aos “parça que tomam banho no túnel do carro dos rico no pina”, os recifenses são os maiores críticos e comentaristas, com conhecimento de causa, do fenômeno quase natural, sazonal, mais recifense que há: os alagamentos da cidade. Põem-se, em meio ao aguaceiro das calçadas, mãos na cintura e olhar atento, a criticar a falta de educação do povo e a inércia da prefeitura, com a distância digna de um bom espectador.
É triste, mas, sim, as pessoas sabem que jogar lixo na rua é errado. As pessoas sabem que jogar um sofá no canal é errado. Os moradores dos grandes prédios residenciais sabem que aquele canal fétido que insistentemente os incomoda diariamente, é um descarado esgoto a céu aberto, que carrega, correnteza abaixo, dentre outras coisas suas refinadas fezes matinais, restos de cereais integrais que os ajudam a se adequar ao padrão. O motorista do ônibus parado há horas, enquanto reclama do trânsito e da prefeitura e se livra do saquinho de pipoca comprado no sinal, sabe que aquele saquinho está sendo largado no lugar errado. As pessoas também tem plena capacidade de associar os alagamentos ao lixo que elas mesmas espalham pela cidade. “Tem nada não”. Não é mais um problema de conscientização e faz um tempo. O problema é o distanciamento do problema.
Se o vendedor lá da esquina comenta com o cara que passeia com o cachorro que o “povo é mal educado”, enquanto não repara no chicletinho esperto que abandona na rua, na prefeitura não é diferente. A culpa sempre é das famigeradas gestões antecessoras, que “não fizeram nada”. “Colocar lixo na rua pra quê, se ‘o povo’ quebra as lixeiras ou mesmo avistando uma, insiste em jogar o lixo no chão?”. Esse quase fenômeno sociológico do deixai passar, tem nada não é o que eu, humildemente, peço a permissão dos que porventura estejam lendo esses meus vômitos diários - frutos de um enjôo que só as grandes cidades provocam - para chamar de inércia recifense. Aliada à maré alta e à chuva torrencial, a inércia recifense tem efeitos devastadores e até letais.
Sim, geograficamente, Recife possui uma certa propensão a enchentes. A altitude da cidade é de apenas 4 metros e ela possui ainda um clima peculiar com totais pluviométricos elevados. A questão é que a Holanda, por exemplo, país que possui cidades a metros ABAIXO do nível do mar, se tornou referência em prevenção de enchentes e investe pesado num eficiente sistema de drenagem, na manutenção de diques e canais. Na província de Flevoland, por exemplo, que está a 3 metros abaixo do mar e é dotada de uma área quase três vezes maior do que Manhattam, se um dique se rompesse, seriam necessárias apenas 48 horas para que a província fosse completamente submersa. O sistema de drenagem da cidade do Recife é precário e negligente, mais um fator que faz do controle das águas uma questão inadiável no estado de Pernambuco, tanto na região metropolitana do Recife, que sofre com o excesso, quanto no sertão que sofre com a falta.
            O irônico é ver os jornais disputando a “inediticidade” da fotografias chocantes dos alagamentos em Recife, quando nada me soa novo. Muda-se a geração, a gestão, persiste o problema. É o que eu chamaria mesmo de inércia recifense.