Sua respiração pesada era o único
som do lugar. Batia nos troncos raquíticos e distantes e ecoava inutilmente. Os
grãos de areia viravam barro em suas narinas. Depois desciam lentamente,
rasgando, como a cana que o vaqueiro tomara noite passada.
Narinas: única região de sua
carcaça capaz de umidificar-se. Quisera ter morado nas narinas. O mundo seria
mais fácil, fosse uma narina. Respirar e inspirar, raramente de forma
controlada. Simples, natural. Úmido.
Não mais queimava a marca feita à
brasa em suas costelas. Tampouco as novas marcas que a terra rachada, ex-açude,
tatuava-lhe em toda extensão da paridade esquerda do corpo carunchoso.
Havia fogo em cima e embaixo,
contudo, do olho direito ainda aberto, via em meio ao cinza, em ângulo
horizontal, uma algaroba desnuda e envergonhada, para a qual forçara
inutilmente, na ausência das pernas bambas, seu tronco carcomido a se
direcionar.
Antes da algaroba constrangida,
persistiam imóveis os olhos negros, que outrora desconcentraram-lhe de sua rota.
Anunciavam com alegria sua morte, que representava para eles um gole de vida.
Sentiu-se útil.
Finalmente fechava os olhos até então semicerrados, parando
de lutar contra a paisagem e os grãos que esfoliavam-lhe as pupilas.
Paradoxalmente, desistir era uma coisa boa. Até então, não conhecera a sensação,
não conhecera nenhum desistente.
Em derradeira expiração enxotou a
primeira formiga ansiosa.
Não pensava, não fora feita para
isso, mas sentia. Por isso preciso relatar seu último suspiro.
20/03/2013, às vitimas da
indiferença.
Marília Parente.