domingo, 8 de junho de 2014

Manifesto pela sobrevivência do cafuçú

Que mulher nunca sentiu arrepios só de avistar ao longe aquela camisa estampada e aquele bigode robusto? Qual delas nunca carregou no íntimo a vontade de desembaraçar com um pente fino de feira os nós nas madeixas enroladas que o gel pretensiosamente não escondeu? Pergunto-lhe ainda, caro vivente, que alma feminina nunca desejou uma noite de amor embalada por Wanderléa, Erasmo, Reginaldo, Ednardo ou Roberto? “Não fale desta mulher perto de mim”.

Vagando pelas ruas cinzas do Recife do século XXI, sinto falta de girassóis e rosas nas lapelas dos rapazes. Aliás, nem lapelas mais avisto. Os mancebos se abestalharam pelas incursões norte-americanas di cum força e um chororô de dizeres tio-sanescos tomou conta do terreiro anecúmeno das camisas apertadinhas e unicolores. O monocromatismo que acomete os Mauricinhos, os queques, como diriam os portugueses, é uma ameaça iminente ao charme masculino. Pobres rapazes desinteressantes. Não se lava calcinha em tanquinho, cara amiga.

Explico. “O sorriso torto, a obturação exposta e os óculos malemolentes apoiados sobre o nariz cujas frestas deixam entrever olhos brejeiros conquistarão, doravante, o coração de uma mulher”, Maria Madalena, capítulo um, versículo primeiro. Um homem chora, menina morena. E ele também escreve versos sobre tuas mantas e ancas numa mesa de bar, assim como é forte o suficiente para não padecer das dores do amor, vide Reginaldo Rossi. O cafuçú é forte o suficiente para transformar a tristeza em roedeira de posto de BR e ainda por cima, nos fazer sorrir.

Este escritos são meu pedido desesperado pela preservação da masculinidade que só o cafuçú tem. Digamos “sim” sem medo, donzelas, à proeminência abdominal inata aos homens sensíveis. À escola de macheza de Wando e Gainsbourg. À honestidade cafajeste tão ingênua que mora em um olhar desajeitado, que te seduz sem ter certeza. À confiança inconteste que reside em um homem sem-vergonha. Sem vergonha de amar.       


  

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Rolezinhos e a leseira nacional

Sou eu na feira, sou eu no shopping. Sou de bike, sou eu de carro. Bom, no carro dos outros. Mas como ninguém chamou a polícia, tá valendo.
O rolé deles não é melhor do que o meu, meu camarada. Então, o porquê da balbúrdia? Também quero mostrar que existo. Tiro onda nas selfie’s, tenho instagram e facebook e adoro me ver em foto. Quero dar matéria também. No fundo, todo mundo quer. Todo mundo, no fundo da cacimba- que a água barrenta das chuvas esconde e enturva na vista- rasga a goela do pensamento num grito que só acaba quando a gente deixa de ser. “Eu existo!Eu existo?”.  Sartre, Dalí, Daleste, que Deus os tenha.  Existencialismo, funk ostentação. Ai, como a gente estratifica. Eita mania da mulesta de competir o bicho-homem tem. Sartre e Daleste: a diferença não importa, importa é o igual. A gente é tudo gente, a gente só quer ser. “Só quer ser o caminhão do lixo”, kakaka, diziam meus amigos de infância de Exu, quando eu desfilava um brinquedo novo.
O povo quer do bom e do melhor. E não quer mais só sapato de Neymar, a corrente de ouro do Mc e os cabelos da global. O povo quer dizer que é tão bom quanto.  Quer mais é torrar a grana suada da entrega das pizzas, da faxina, do batente. Quer ir ao shopping. Quer ocupar mais um espaço que, até então,  lhe fora negado. Quer descer o morro, dar uma descansada da favela. Tudo combinado no face.

Parabéns à indústria cultural. A sociedade de consumo é mais realidade do que nunca. Ela penetrou na mente, varreu o juízo e a pirangagem e fez todo mundo viver de ostentar. Então, pergunto outravezmente, o porquê do burburinho? Você já reparou nos sapatos de Dalí?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

GOLE


Cê é meu gole de coca
Fria
Sob o calor da Mooca
Porra, eu não sou paulistana
Tu é meu litro de cana
Quente
Que rasga o cangote
como quem mama
Mácula
Drácula
Por culpa tua fiquei fria
à revelia
Não tem cana que aqueça
Esqueça
mordo os outros por aí
Recife, Sampa, Itajaí
Sob o calor da Mooca           

Imploro por um gole de coca