quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CRÔNICA: A DEVASSIDÃO DE SOFIA



Saindo a seu bel-prazer, fosse manhã, tarde ou noite, sorrateira pela janela, rebolando insistentemente o rabo felpudo, Sofia desfilava devassa. Os olhos negros e ingênuos dele, brilhantes de curiosidade e raiva, tremulavam no espaço, enquanto aquele ser de postura indefectível e irritantemente pedante, esnobava sua suposta liberdade no focinho negro, preso no avarandado por duas colunas de grades brancas, horizontais e antigas.
As flores igualmente segregadas do mundo pelas grades, no mesmo avarandado que ele, pilheriavam estáticas e cretinas. A cada passo silencioso e abusivamente elegante de Sofia, mais ridicularizada a hostilidade dele a ela se tornava. A dracena ranzinza, quando chacoalhada pelos ventos soberanos de agosto, cochichava impiedosamente a cada fuga dela e a cada aparição estabanada e impolida dele. As flores, fadadas a seus jarros, ridicularizavam a prisão alheia, munidas por um sentimento de superioridade e entretenimento.
Por mais que corressem os meses, não se adaptavam um ao outro. Sofia ignorava-o soberba, ele, contudo, resistia com ladridos estridentes, que irritavam em demasia a vizinhança, mas que a excitavam ainda mais a prosseguir com sua provocação coquete. É inegável, no entanto, embora os latidos corriqueiros e banais houvessem tornado-se rotina, que todo aquele ódio inicial dava lugar a um certo voyeurismo, toda vez que ela rolava infantil pelo granito frio e xadrez do corredor, bocejava e espreguiçava-se delicadamente, esticando todos os músculos elásticos e frágeis.
Amavam odiar-se. Toda aquela implicância orgulhosa e fictícia, deu a luz à um paradoxal bem-querer, ilustrado pelo azul celeste dos dias que passavam rapidamente e pelo negro elegante das noites, que o escondia e realçava o branco nuvem dos pelos puros da profana Sofia. Cada fuga era agora acompanhada por uma sinfonia de miaus e auaus, tecidos pelos rabinhos dançantes e contentes.
Esse relacionamento peculiar, era a fortaleza de ambos, incólumes aos problemas vazios dos transeuntes do corredor do segundo andar, do bloco A, do edifício Bom Jesus. Enquanto passavam apressados e aprisionados por ponteiros e preocupações, ausentes no próprio presente- com exceção às três irmãzinhas que, educadamente, os cumprimentavam matinalmente ao ir para a escola- ignoravam diariamente toda a sutileza daquele milagre da natureza, assim com ignoravam os ventos de agosto- ao não ser que derrubassem algum documento ou porta-retrato, posto desatenciosamente em um lugar inadequado da estante recém-adquirida- e o cochicho das plantas recalcadas.
Abrem-se e fecham-se portas, grades, cadeias, refrigerantes, sacolas, gavetas, bolsas chiques, livros desinteressantes, lojas, ruas, olhos e caixões. Compra-se e vende-se. Cansa-se e dorme-se. Volta-se para casa. Mick e Sofia estão lá: presos, mas libertos. 


Marília Cardoso Parente de Melo