quarta-feira, 20 de março de 2013

A DESISTENTE


Sua respiração pesada era o único som do lugar. Batia nos troncos raquíticos e distantes e ecoava inutilmente. Os grãos de areia viravam barro em suas narinas. Depois desciam lentamente, rasgando, como a cana que o vaqueiro tomara noite passada.
Narinas: única região de sua carcaça capaz de umidificar-se. Quisera ter morado nas narinas. O mundo seria mais fácil, fosse uma narina. Respirar e inspirar, raramente de forma controlada. Simples, natural. Úmido.  
Não mais queimava a marca feita à brasa em suas costelas. Tampouco as novas marcas que a terra rachada, ex-açude, tatuava-lhe em toda extensão da paridade esquerda do corpo carunchoso.
Havia fogo em cima e embaixo, contudo, do olho direito ainda aberto, via em meio ao cinza, em ângulo horizontal, uma algaroba desnuda e envergonhada, para a qual forçara inutilmente, na ausência das pernas bambas, seu tronco carcomido a se direcionar.
Antes da algaroba constrangida, persistiam imóveis os olhos negros, que outrora desconcentraram-lhe de sua rota. Anunciavam com alegria sua morte, que representava para eles um gole de vida. Sentiu-se útil.
Finalmente fechava os olhos até então semicerrados, parando de lutar contra a paisagem e os grãos que esfoliavam-lhe as pupilas. Paradoxalmente, desistir era uma coisa boa. Até então, não conhecera a sensação, não conhecera nenhum desistente.
Em derradeira expiração enxotou a primeira formiga ansiosa.
Não pensava, não fora feita para isso, mas sentia. Por isso preciso relatar seu último suspiro.

20/03/2013, às vitimas da indiferença.

Marília Parente.

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