Em Recife,
consciência crítica tem época. De abril a julho, entre jacarés nas avenidas e
desabamentos nos morros, dos moradores de Boa Viagem que se divertem em seus
esquis nas ruas alagadas aos “parça que tomam banho no túnel do carro dos rico no
pina”, os recifenses são os maiores críticos e comentaristas, com conhecimento
de causa, do fenômeno quase natural, sazonal, mais recifense que há: os
alagamentos da cidade. Põem-se, em meio ao aguaceiro das calçadas, mãos na
cintura e olhar atento, a criticar a falta de educação do povo e a inércia da
prefeitura, com a distância digna de um bom espectador.
É triste, mas,
sim, as pessoas sabem que jogar lixo na rua é errado. As pessoas sabem que
jogar um sofá no canal é errado. Os moradores dos grandes prédios residenciais
sabem que aquele canal fétido que insistentemente os incomoda diariamente, é um
descarado esgoto a céu aberto, que carrega, correnteza abaixo, dentre outras
coisas suas refinadas fezes matinais, restos de cereais integrais que os ajudam
a se adequar ao padrão. O motorista do ônibus parado há horas, enquanto reclama
do trânsito e da prefeitura e se livra do saquinho de pipoca comprado no sinal,
sabe que aquele saquinho está sendo largado no lugar errado. As pessoas também
tem plena capacidade de associar os alagamentos ao lixo que elas mesmas
espalham pela cidade. “Tem nada não”. Não é mais um problema de conscientização
e faz um tempo. O problema é o distanciamento do problema.
Se o vendedor
lá da esquina comenta com o cara que passeia com o cachorro que o “povo é mal
educado”, enquanto não repara no chicletinho esperto que abandona na rua, na
prefeitura não é diferente. A culpa sempre é das famigeradas gestões
antecessoras, que “não fizeram nada”. “Colocar lixo na rua pra quê, se ‘o povo’
quebra as lixeiras ou mesmo avistando uma, insiste em jogar o lixo no chão?”. Esse
quase fenômeno sociológico do deixai
passar, tem nada não é o que eu,
humildemente, peço a permissão dos que porventura estejam lendo esses meus vômitos
diários - frutos de um enjôo que só as grandes cidades provocam - para chamar
de inércia recifense. Aliada à maré
alta e à chuva torrencial, a inércia
recifense tem efeitos devastadores e até letais.
Sim,
geograficamente, Recife possui uma certa propensão a enchentes. A altitude da
cidade é de apenas 4 metros e ela possui ainda um clima peculiar com totais
pluviométricos elevados. A questão é que a Holanda, por exemplo, país que
possui cidades a metros ABAIXO do nível do mar, se tornou referência em
prevenção de enchentes e investe pesado num eficiente sistema de drenagem, na
manutenção de diques e canais. Na província de Flevoland, por exemplo, que está
a 3 metros abaixo do mar e é dotada de uma área quase três vezes maior do que Manhattam,
se um dique se rompesse, seriam necessárias apenas 48 horas para que a província
fosse completamente submersa. O sistema de drenagem da cidade do Recife é precário
e negligente, mais um fator que faz do controle das águas uma questão inadiável
no estado de Pernambuco, tanto na região metropolitana do Recife, que sofre com
o excesso, quanto no sertão que sofre com a falta.
O
irônico é ver os jornais disputando a “inediticidade” da fotografias chocantes
dos alagamentos em Recife, quando nada me soa novo. Muda-se a geração, a gestão,
persiste o problema. É o que eu chamaria mesmo de inércia recifense.
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