Carta aos
exuenses.
Do alto das
espinhas que colorem de rubro meu rosto sem rugas, proponho, pois, que façamos
diferente.
A história do
município de Exu, parodiando Marx, é a história das brigas entre famílias. Para
Ariano Suassuna o nordeste é feudal. Não sei até que ponto o nosso armor
defendeu essa afirmação, mas a realidade é que no município de Exu, os vassalos
continuam agindo como se fosse a política uma guerra- e talvez ainda seja-
comportando-se como soldados de seus senhores, que devem, portanto, agredir
seus adversários(como se todos não estivessem no mesmo barco naufragante)
apenas pela força do hábito, de agirem assim as gerações passadas e
ultrapassadas, arbitraria e irreflexivamente.
Os budistas
chamam de três fogos a cobiça, o orgulho e o erro. Exu está em chamas. O funcionalismo
público, ainda é, ridiculamente, um dos pilares da máquina obsoleta que é o
sistema político falido e desestruturado da cidade, cuja gasolina é a ignorância
do povo. Comprar votos com dinheiro é “old school”, coisa antiga, a moda agora é
falar em democracia e trocar empregos por votos, sendo a cobiça tão inerente ao
eleitor quanto ao eleito. O orgulho está em achar que não só é errado mudar de
lado e pensar diferente, mas em considerar traição e praguejar nas calçadas
sortidas de novidades e más intenções, aquele que ousar em “pular pro lado de cá
ou pro de lá”.
Há um conceito
hindu chamado de Maya, ele pode representar as ilusões pessoais humanas, o
desconhecimento dos defeitos do mundo e dos próprios. Sidarta Gautama, o Buda, viveu
em um castelo sem conhecer a triste realidade que o cercava, repleta de miséria
e de fome, só descobrindo-a ao resolver sair do castelo, onde fora criado, o
que também o fez entender que as pessoas com as quais convivia mentiam-lhe
acerca do mundo. Sidarta só evoluiu ao sair do castelo. Os exuenses devem sair
dos seus castelos de ilusões e mentiras, pois só assim libertar-se-ão da
ignorância que os cega e os algema, mão a mão, ao retrocesso.
O
comportamento político da população de Exu pode ser extremamente enganoso. Para
os desatentos, pode soar como engajamento. O aparente interesse do
povo por política, todavia, embora mascarado por entusiasmo e envolvimento, representa
uma complexa dinâmica cultural de auto-afirmação, vaidade e violência. Como
ventríloquos, os antepassados dos exuenses continuam transmitindo através da
influência magnética da cultura, seus valores violentos, que por sua vez são
aceitos e praticados sem contestação, por uma maioria absoluta, que se permite,
a cada provocação grotesca, a cada música eleitoral estúpida, a cada amigo
perdido, tornar-se uma grande marionete, bizarra e acéfala.
Proponho que
enterremos de vez, junto ao passado sangrento, o presente contaminado, para que
façamos um novo futuro. Proponho que amemos nossas famílias, mas que saibamos
quando for necessário pensar diferente delas. Proponho que limpemos a sujeira,
seja do branco ou do preto de nossas bocas, para usarmos palavras educadas e
agirmos de acordo com elas. Proponho que debatamos, ao invés de brigar, afinal é
assim que se faz política de verdade. Aos velhos de espírito, bem-vindos ao século
21, aos jovens, como diria Gonzaguinha, “vamos lá, fazer o que será”.
Esperançosamente,
Marília Cardoso Parente de Melo.
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