quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CARTA AOS EXUENSES


Carta aos exuenses.

Do alto das espinhas que colorem de rubro meu rosto sem rugas, proponho, pois, que façamos diferente.
A história do município de Exu, parodiando Marx, é a história das brigas entre famílias. Para Ariano Suassuna o nordeste é feudal. Não sei até que ponto o nosso armor defendeu essa afirmação, mas a realidade é que no município de Exu, os vassalos continuam agindo como se fosse a política uma guerra- e talvez ainda seja- comportando-se como soldados de seus senhores, que devem, portanto, agredir seus adversários(como se todos não estivessem no mesmo barco naufragante) apenas pela força do hábito, de agirem assim as gerações passadas e ultrapassadas, arbitraria e irreflexivamente.  
Os budistas chamam de três fogos a cobiça, o orgulho e o erro. Exu está em chamas. O funcionalismo público, ainda é, ridiculamente, um dos pilares da máquina obsoleta que é o sistema político falido e desestruturado da cidade, cuja gasolina é a ignorância do povo. Comprar votos com dinheiro é “old school”, coisa antiga, a moda agora é falar em democracia e trocar empregos por votos, sendo a cobiça tão inerente ao eleitor quanto ao eleito. O orgulho está em achar que não só é errado mudar de lado e pensar diferente, mas em considerar traição e praguejar nas calçadas sortidas de novidades e más intenções, aquele que ousar em “pular pro lado de cá ou pro de lá”.
Há um conceito hindu chamado de Maya, ele pode representar as ilusões pessoais humanas, o desconhecimento dos defeitos do mundo e dos próprios. Sidarta Gautama, o Buda, viveu em um castelo sem conhecer a triste realidade que o cercava, repleta de miséria e de fome, só descobrindo-a ao resolver sair do castelo, onde fora criado, o que também o fez entender que as pessoas com as quais convivia mentiam-lhe acerca do mundo. Sidarta só evoluiu ao sair do castelo. Os exuenses devem sair dos seus castelos de ilusões e mentiras, pois só assim libertar-se-ão da ignorância que os cega e os algema, mão a mão, ao retrocesso.
O comportamento político da população de Exu pode ser extremamente enganoso. Para os desatentos, pode soar como engajamento. O aparente interesse do povo por política, todavia, embora mascarado por entusiasmo e envolvimento, representa uma complexa dinâmica cultural de auto-afirmação, vaidade e violência. Como ventríloquos, os antepassados dos exuenses continuam transmitindo através da influência magnética da cultura, seus valores violentos, que por sua vez são aceitos e praticados sem contestação, por uma maioria absoluta, que se permite, a cada provocação grotesca, a cada música eleitoral estúpida, a cada amigo perdido, tornar-se uma grande marionete, bizarra e acéfala.
Proponho que enterremos de vez, junto ao passado sangrento, o presente contaminado, para que façamos um novo futuro. Proponho que amemos nossas famílias, mas que saibamos quando for necessário pensar diferente delas. Proponho que limpemos a sujeira, seja do branco ou do preto de nossas bocas, para usarmos palavras educadas e agirmos de acordo com elas. Proponho que debatamos, ao invés de brigar, afinal é assim que se faz política de verdade. Aos velhos de espírito, bem-vindos ao século 21, aos jovens, como diria Gonzaguinha, “vamos lá, fazer o que será”.

Esperançosamente, Marília Cardoso Parente de Melo.

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